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Carta de Amor


—Por que você está me escrevendo?

“ – Oh, na verdade não estou escrevendo, escrevo o que tenho vontade de fazer com você…

“Havia folhas por toda parte.  Em volta dela, nos pés, na cama.  Peguei uma ao acaso:



Fazer piquenique, fazer a sesta na beira de um rio, comer pêssegos, camarões, croissants, arroz de sushi, nadar, dançar, comprar sapatos para mim, lingerie, perfume, ler o jornal, olhar as vitrines, pegar o metrô, vigiar a hora, empurrá-lo quando você toma o espaço todo , estender a roupa, ir à Ópera, ao Beyruth, a Viena, às compras, ao supermercado, fazer churrasco, reclamar porque você esqueceu o carvão, escovar os dentes ao mesmo tempo que você, comprar cuecas para você, cortar a grama, ler o jornal por cima do seu ombro, não deixar você comer amendoim, visitar as caves do Loire, e as do Hunter Valley, dar uma de boba, matraquear, apresentar-lhe Martha e Tino, colher amoras, cozinhar, voltar ao Vietnã, vestir um sári, cuidar do jardim, acordá-lo de novo porque está roncando, ir ao zoológico, ao Mercado das Pulgas, a Paris, a Londres, a Melrose, a Picadilly, cantar para você, parar de fumar, pedir-lhe para me cortar as unhas, comprar louça, bobagens, coisas que não servem para nada, tomar sorvete, olhar as pessoas, ganhar de você no xadrez, escutar jazz, reggae, dançar mambo e chachachá, me entediar, ter caprichos, amarrar a cara, rir, ter você na palma da mão, procurar uma casa com vista para as vacas, encher carrinhos de supermercado até a boca, pintar o teto, fazer cortinas, ficar horas à mesa conversando com gente interessante, segurá-lo pelo laço, cortar os seus cabelos, arrancar o mato, lavar o carro, olhar o mar, rever filmes horrorosos, chamá-lo de novo, falar sem meias palavras, aprender a tricotar, tricotar uma echarpe para você, desfazer esse horror, recolher gatos, cães, papagaios, elefantes, alugar bicicletas, não usá-las, ficar numa rede, reler os Bicot* da minha avó, rever os vestidos de Suzy, beber margaritas na sombra, trapacear, aprender a usar um ferro de passar, jogar o ferro de passar pela janela, cantar debaixo da chuva, fugir dos turistas, me embebedar, lhe dizer toda a verdade, me lembrar de que nem toda verdade deve ser dita, escutá-lo, dar-lhe a mão, pegar de volta o ferro de passar, escutar as letras das músicas, pôr o despertador, esquecer as malas, parar de correr,esvaziar a lata de lixo,perguntar-lhe se ainda me ama,  conversar com a vizinha, contar-lhe minha infância em Bahrein, os anéis da minha babá, o cheiro de hena e os bolinhos de âmbar, molhar o pão no leite, fazer etiquetas para os potes de geléia …

(Anna Gavalda. Eu a Amava)






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