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Manipulação: espaços e poder

Texto de Luís Carlos Lopes
La Insignia. Brasil, março de 2007.

Manipular significa tratar o outro como um boneco de ventríloquo. Negar a alteridade e fazer com que o outro seja apenas uma caixa de ressonância dos desejos e vontades do manipulador. Há quem duvide que isto seja possível de ser feito e imagine um mundo idílico de homens e mulheres absolutamente livres, donos de seus destinos e capazes de compreender o que os envolve. Os manipuladores adoram que se imagine que as coisas do mundo funcionam deste modo. Nada mais conveniente, para quem adota o papel de controlar os menos preparados ou menos capazes de compreender.
A manipulação não é genética e não precisa ser necessariamente parte da manifestação de uma doença mental. Não raro, os manipuladores são um pouco loucos, não daqueles que sofrem tratamentos e padecem nos ambulatórios e hospitais psiquiátricos. Ao contrário, para o manipulador, loucos são os que não aceitam serem manipulados. Eles se imaginam donos da normalidade e fiadores do que ela possa ser considerada. O conto O Alienista de Machado de Assis é um bom exemplo literário de onde a manipulação pode levar.

A manipulação é uma arte, sempre aprendida de outros manipuladores. Hoje, existem escolas que ensinam esta arte. Estes cursos usam títulos mais nobres e aparentemente desconectados desta velha obsessão. Ninguém gostaria de ser qualificado como manipulador. O objetivo maior da mesma arte é o de conseguir que seus objetos, isto é, os outros, sejam dóceis e não reajam a qualquer expediente usado para convencê-los da 'verdade'.

Quem tem o hábito de instrumentalizar os outros imagina o mundo dividido entre escravos, inimigos e mestres. Os escravos seriam os que aceitam passivamente a dominação. Os que reagem e se libertam são os inimigos. Os mestres são os parceiros da ordem hierárquica de controle. Os manipuladores simplificam a ordem social e tiram proveito desta absurda construção simbólica.

Seus esquemas de poder funcionam porque se autoafirmam como verdades inquestionáveis. Se conseguem aderentes, tudo está resolvido, pelo menos, até que algo ocorra, desestabilizando as estruturas de poder. Isto, felizmente, ocorre freqüentemente. Eles temem afundar no pântano, por isto costumam dizer, por exemplo, "que o preço da liberdade é a eterna vigilância". Guardam o segredo do possível naufrágio a sete chaves. Tentam evitar que seus comandados conheçam suas fraquezas e a possibilidade de serem destruídos.

O ambiente onde os manipuladores agem é de natureza social, por isto, quando eles surgem no cenário, não vieram do nada. Representam o poder existente, nas suas múltiplas facetas. Esta velha arte foi criada como estratégia de controle, pensada como meio de impedir o acesso ao conhecimento ou de fazer que os que estiverem em posição subalterna aceitem a dominação sem reclamar. Neste sentido, quem manipula também é manipulado.

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