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Já está tarde

Ela acordou, com a mesma sensação de sempre: cansaço e solidão. Ela sabia que isso permaneceria até o fim do dia. E não importa o que ela fizesse, nada faria isso desaparecer. Os amigos, a família não entendia as recusas aos convites. Não adiantava, porque ela sabia, que para todos, ela seria sempre uma visita, uma amiga para distrações esporádicas no shopping, num barzinho. Ela sabia que tinha uma hora marcada para todos: ela era aquela visita de final de ano, de domingo, de feriado. Para as poucas amigas, ela era aquela para  saída de fim de tarde, após um dia de trabalho cansativo. E depois de todas as horas dos dias de festas, das noites de sexta, ela sabia, que deveria voltar pra casa sozinha, porque não era responsabilidade de absolutamente ninguém. Ninguém poderia ficar com ela, além do tempo necessário. Depois que os bares fechavam, que o almoço de domingo acabava, era hora dela ir embora. Uma amiga a deixava em casa, alguém da família providenciaria o dinheiro da passagem de volta. Na chegada, havia sempre algo que a esperou, desde a época do colégio, desde sempre: seu quarto vazio. Ela lembra quando ganhou um quarto só pra ela. Um quarto só pra ela, foi o único presente eterno de seus entes queridos.

As pessoas tinham esperanças que ela encontrasse alguém, um namorado, um marido. Sempre que dizia estar com algum rapaz, via o alívio nos olhos das pessoas: "graças a Deus, ela agora tem alguém"- pensavam. Mas os namorados também tinham horários marcados. E o tempo limite, deveria ser sempre um final de semana, dias de feriados. Depois ela deveria ir embora. Lembrou-se das vezes que tentou ficar um pouco mais, das desculpas que arrumava para permanecer ao lado: "já é muito tarde pra ir embora", "vou dormir aqui de uma vez porque amanhã bem de manhã, vou em um lugar aqui perto". Se odiou quando lembrou disso. Odiou-se ainda mais quando lembrou de como a família dos rapazes, de forma nada sutil, tentavam dizer que ela havia ficado por ali tempo demais.

Havia um horário marcado pra ela. Nunca um pouco mais. Mas se ela por acaso não ia, para ficar um tempo, as pessoas a julgavam bastante: "como ela não pode vir?" "Que tipo de amiga que você é, se não pode me acompanhar?" Ela tinha que estar sempre disponível para todos, quando todos a quisesse. Ela sempre tinha que esperar as pessoas. Mas ninguém podia esperar por ela. As pessoas diziam: "Agora, que eu já fiz tudo que tinha que fazer, talvez eu possa ficar um pouco com você". "Não posso falar agora, só após as cinco horas". "Vou sair com alguns amigos, vou fazer exercícios, depois talvez podemos nos falar". "Terça, tem missa, não posso te ajudar nesse dia". 

Mas ela deveria entender, entender os horários. Por várias vezes, se sentia como Alice, correndo atrás do coelho branco. Na vida dela, todos haviam sido o coelho. Ela sempre esperava ou  corria atrás. Isso, por muito tempo, foi mais confortante do que ficar sozinha. E caso não fizesse isso, não havia estória nenhuma na sua vida, porque eles jamais esperariam por ela. Jamais ficariam um pouco mais. Mas ela cansou, cansou de verdade. Ela começou a ver de verdade, o seu lugar na vida daqueles que diziam que a amavam. O seu lugar era apertado e lá o tempo era sempre muito curto. Ela entendeu pela primeira vez, o quanto ela se enganava com todos eles. Ela entendeu as vezes que, de forma simpática, ela sorria para eles, dizendo não se importar por ter que ficar ali  apenas um pouquinho. Agradecida sempre pelo o "nada" que recebia, de pessoas que não a queriam por perto. É tarde querida, tão tarde que até arde! Ah, meu Deus, olá e adeus! É tarde, é tarde, é tarde! 

(Sabrina Gomes, 2012, dezembro)

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