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Aparências, Materialismo e a falsa definição da Felicidade

Existe uma passagem de Alice no País das Maravilhas que fala sobre ser o que não é. A frase é dita pela Duquesa, assim:


"Seja o que você parece ser. Ou se você quer que eu lhe fale de uma forma mais simples: Nunca imagine que você não é senão o que você poderia parecer aos outros que o que você foi ou poderia ter sido não era senão o que você tinha sido que lhes teria  parecido diferente." 


A bem da verdade, o que ela fala é absurdo, porque ela sugere que devemos ser sempre aquilo que parecemos ser, ou aquilo que os outros desejam que um bom humano fosse. Ou que no mínimo, se não conseguíssemos realmente ser isso (o que na maioria das vezes ocorre) deveríamos pelo menos aparentar ser.

A Duquesa, assim como a Rainha Vermelha, representam na obra de Alice no País das Maravilhas, os ditames sociais. Elas não eram vilãs como representou Tim Burton naquela adaptação horrível para o cinema, onde a rainha vermelha foi transformada em um ser do mal. Elas eram apenas a burguesia, apenas mais uma peça no xadrez da vida, assim como nós todos. Lewis Carrol, o criador da obra,  era bastante revoltado com a superficialidade da socialite inglesa, bem como a rigorosidade das condutas, como a exigência lúdica de ser pontual,  de chegar na hora certa. Apesar de todo inglês ter muito orgulho da sua pontualidade, Carrol achava que todos aqueles monarcas eram loucos e sem noção da própria miserabilidade. Assim ele criou o personagem do Coelho Branco, que de forma obsessiva, grita aos quatro ventos a frase "é tarde, é tarde, é tarde!" sem ao menos estar realmente atrasado.


Desde cedo, encontramos um rol de coisas que devemos fazer antes de morrer e que são de suma importância para uma pessoa ser feliz ou ser percebida pelos outros como uma excelente pessoa, uma pessoa de sucesso. Ligamos diretamente a competência, a bonança, a generosidade e todas as boas qualidades àqueles que nos apresentam bem vestidos, bem equipados ou que ocupe grandes cargos.

Nesse sentido, encontramos milhares de pessoas cheias de objetos e coisas, mas perdidas e angustiadas. Elas descobrem da pior maneira, o que é ter uma casa cheia de coisas, fotos, lembranças, uma bagagem cheia de experiências, mas que no coração, não há absolutamente nada. Descobrem que foram vítima de uma fantasia social, pois apesar de conseguirem ter uma boa imagem, esta não está condizente com a realidade, e não se pode mentir para si mesmo.

Por isso, é difícil entender que uma roupa da Gucci não vai fazer você mais chic.
Seu carro, não te torna um homem livre.
O cigarro, não faz de você uma pessoa descolada, legal ou moderna. E ter uma moto não quer dizer que você chegará na frente.

Uma viagem à Paris não vai tornar sua alma mais nobre.
Uma ida na boate com as amigas, não fará de você uma pessoa mais sociável, bonita e feliz. Aliás, companhias para finais de semana não quer dizer amizade.
Uma lipoaspiração ou uma cirurgia plástica, não livrará você de si mesma.
Um Ipad não te faz um homem mais refinado.

Seu book de fotos  não mostra quem você realmente é, mas somente, aquilo que você queria ser.
E principalmente, quem você é, nunca deveria ser menos importante do que aquilo que você queria ser.

A felicidade não está lá fora, mas puramente dentro de você. Ela não depende de coisas alheias para existir, mas depende apenas de você se felicitar com o simples.  
Você não é aquilo que você mostra. O importante, o real, está do lado de dentro.

O escritor, filósofo e professor, Osho, acreditava que a busca dessa materialidade, era na verdade, uma forma dos desequilibrados ocuparem suas mente. De acordo com o filósofo, a humanidade se ocupa de coisas não essenciais,  buscando cada vez mais o supérfluo  porque seus egos precisam de grandes feitos, ainda que esses feitos sejam inúteis:

"O mundo inteiro está em busca do não essencial. Se você olhar a indústria, vai ver que noventa por cento delas estão envolvidas com o não essencial. Cinquenta por cento do trabalho humano é desperdiçado com no que não é útil de maneira alguma. Em vez disso, cinquenta por cento da indústria dedica-se a mente feminina, ao corpo feminino: criando roupas novas a cada três meses, projetando casas novas, vestuários, maquiagens, sabonetes, cremes...cinquenta por cento da indústria é dedicado a tal absurdo. E a humanidade está morrendo de fome, as pessoas estão morrendo sem comida, e metade da humanidade está interessada em algo não essencial. O não essencial é necessário para que sua loucura permaneça ocupada. Então ir a lua não é mais suficiente  pois teremos de ir mais longe, teremos que continuar criando o inútil. Ele é necessário"
(Osho- O Barco Vazio- Pag. 63)



Há alguns meses eu encontrei um texto, maravilhoso, do Gabito Nunes, que é também bastante pertinente ao assunto. Eu não sei o título da obra, não consegui localizar, pois encontrei o texto por acaso. Mas vale muito a pena registrar ele aqui no Tromba, porque é uma obra prima. Todo adolescente deveria ler, e os adultos-aborrescentes também.


Você não está rejuvenescendo, tio. É só uma camionete. Você não correrá mais rápido, atleta de final de semana. É apenas um tênis. Você não está com o olhar nem mais nem menos marcante, garota. Não passa de uma maquiagem. A felicidade não transborda no girar de uma tampinha, amigo. É apenas um refrigerante.

Atitude não é nada disso, cara. Isso é só uma calça jeans justa com preço bem injusto. Você não ganhou a incrível habilidade de chegar nas mulheres ou atrair uma turma gente-fina, parceiro. É só cerveja. Menina, não é essa caixinha que vai fazer você e seu pai se entenderem e trocarem confissões emocionais. É só café à vácuo. Você não comprou liberdade, rapaz. Mas uma motocicleta. Você não acordou enigmático e criativo. Apenas acendeu um cigarro

Sua família não vai acordar de bom humor e esperar você se levantar para tomar o desjejum. Não importa qual o logotipo estampado na margarina. Você não vai perder o peso que levou onze anos para acumular, senhora. É só um creme. Talvez você tenha sucesso profissional, garoto. Com ou sem essa impressora multifuncional. Ninguém sabe como encontrar o marido perfeito, moça. Nem este livro. Você pode até fazer sucesso com as meninas. Nada a ver com essa guitarra da vitrine

Você não vai viajar por todo o mundo, a menos que tenha dinheiro. Com apenas o cartão de crédito, você só vai navegar num mar de dívidas. Não é seu passaporte para o mundo. É uma escola de idiomas. Você não mudou de personalidade. A coloração do seu cabelo, sim. Você não vai aprender com seus erros e reescrever sua história. Vai apenas comprar um telefone que funciona via frequência de rádio. V

ocê acha que agora vai ter três garotas na sua cama, ao mesmo tempo. Mas só trocou seu desodorante para o aerosol. Seu gerente não vai estar junto, na riqueza ou na pobreza. É só um banco privado como outro qualquer. Você não adquiriu o carisma de um grande líder. Apenas se matriculou numa universidade. Nós todos não viveremos num paraíso por toda a eternidade. É só um padre num microfone, arrecadando fundos.

(Gabito Nunes)



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