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Vitória Desiludida


Vitória me disse que o amor acontece. E aconteceu pra ela. Vitória passou muito tempo pensando que era importante pra ele. Mas não era. É claro que durante os anos, ela soube e descobriu muitas traições. "Todos os homens traem", ela me disse. Mas foi em uma noite de outono (e tinha que ser outono) que Vitória descobriu a pior coisa que uma mulher apaixonada pode descobrir. A pior de todas as traições: Além dela, existiam muitas outras "queridas". 

Não posso censurar àqueles que odeiam esses termos de amor: Bem, Mô, Lindinha, Hermosa, Querida, Amor... Porque eles deveriam ser usados apenas com uma pessoa especial, muito especial. Mas veja, eu sou a querida,  Vitória era querida e tantas outras que você conhece e vai conhecer. 

Vitória percebeu que o termo que seu amado tanto a chamava, era só mais um termo americano, usado em filmes românticos americanos, que ensinam homens vazios a serem mais galanteadores. 
Ela não chorou, porque isso ela vez quando soube das traições. Ela se calou, em um silêncio de morte. As coisas pioraram quando Vitória soube também, que os pratos que ele aprendera a cozinhar, também não foram feitos apenas para  impressioná-la, mas também para impressionar as amigas dele. Percebera que era tão insignificante que não merecera sequer um prato importante. Na verdade, os pratos que ele aprendera eram exibidos como troféus nas conversas de paqueras corriqueiras. Assim como as frases de efeito que ele lia nos livros de auto-ajuda e nas canções de rock.

Não sei se ela ficou chocada com a falta de importância que ela tinha na vida dele, ou da falta de importância que ele realmente tinha na vida humana, já que ele era, na verdade, igual a todos os outros. Mas o amor é tão cego e Vitória julgava ter encontrado alguém diferente e especial.

Eu tentei consolar Vitória. Disse que certa vez, vi em um filme que a paquera praticada por pessoas comprometidas é algo comum em muitos países, principalmente na Itália.  "Dizem que eleva a autoestima e fortalece o poder de conquista"- afirmei imponente!
Mas Vitória é tão cética. Lamentou dizendo: "Como são frágeis as patologias humanas. Como é pequeno nosso ego, sempre precisando de impressionar o sexo oposto, pra se sentir grande. Eu sou apenas mais uma. Pouco importa os longos anos de companhia que  fiz pra ele, os momentos  que suportei seu tédio e aturei seu mau humor. Eu sou apenas uma. Mas perante suas amigas eu não sou sequer "uma", sou mesmo é "nenhuma", não sou ninguém. Nenhuma delas sabe de minha existência  uma vez que ele age como se eu não existisse na sua vida. "Oi, eu sou um garoto, gosto de música, sei tocar violão, sei fazer sushi e entendo de tecnologia". Não há espaço pra mim nessa descrição da sua vida. Isso atrapalharia muito seu poder de conquista. 
Eu conheço muitos garotos que namoram. Esses garotos conhecem milhares de garotas mais bonitas todos os dias. Mas eles seguem em frente. Sabem que sempre existirá uma mais bela, mais atraente, ou mais alegre, mas não existirá nenhuma como a sua garota. E eles entendem que isso não é algo ruim. Eu não tive sorte de apaixonar por um garoto assim". 

A Vitória é assim...romântica. Penso que ela teve o azar de receber uma educação arcaica. Afinal, amar incondicionalmente alguém, hoje em dia, é algo muito démodé. Não é essa a política que os seres humanos atualmente pregam e ensinam à sua prole. A política atual é: Coma quem você puder
Mas Vitória não entendeu muito bem. Ela tenta dar à alguém conceitos éticos que só podem ser inseridos no berço. E quando este falha, só podem ser inseridos pela vida. Se ele não conseguiu aprender sobre o amor com seus entes queridos, (seus melhores professores) só lhe resta aprender com a vida. Mas lá está Vitória no meio, a atrapalhar a vida nos seus ensinamentos. Pois enquanto a vida tenta mostrar pra ele que o amor é algo frágil como uma rosa, que deve ser cuidada com delicadeza, diariamente, Vitória está lá, descuidada e vivendo, oferecendo-lhe seu sangue, sua vida, assim de graça, como se não houvesse o amanhã. Não se pode valorizar aquilo que se tem de graça e com abundância. As pessoas precisam de desafios para se sentirem importantes. Eu já te disse isso, Vitória!

Mas é só mais uma noite que Vitória abriu mais uma porta. Ela sempre me liga quando abre mais uma porta. A gente define assim, sempre que ela descobre algo que nunca soube dele. Ela me liga e diz: "Oi, amiga. Eu sei que eu não devia, mas acabo de abrir mais uma porta"
Quando ela diz isso, eu sei que ela está triste. Em todos esses anos, toda vez que ela abriu uma porta, viu coisas que não deveria e que não queria ver. Mas ela continua abrindo, assim como fizeram seus pais antes do divórcio. Como diz a canção: "Apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais".

Uma vez li que os grandes amores, morrem com o "abrir" dessas portas. E que é prudente mantê-las fechadas, pois há sempre algo no interior de todos os humanos que é tão feio, tão imundo, que sempre procuramos esconder. Quando conhecemos alguém, imediatamente, trancamos nossas imundices nessas portas. Mas a medida que ficamos íntimos, nos distraímos e deixamos pequenas chaves a vista. Como resistir em abri-las, mesmo sabendo que o preço disso é o desencanto do encanto? Não se deve abrir, mas as chaves estão ali: em um bom dia que nunca foi dito, em um obrigado não falado no café da manhã. Nos gestos emburrados, na intolerância, na infidelidade. Lá estão as chaves. Quem tem coragem de nunca abrir, fingir que elas não estão ali?



 

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