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O conto das Cabras, por Sancho Pança




Ontem a noite, quase tive uma crise de riso quando me deparei com essa passagem do livro de Dom Quixote. Estou amando o livro, apesar da leitura extremamente difícil !! Mas eu encontrei uma tradução da passagem na internet, cuja leitura é mais fácil e passo a transcrever ela  para que vocês possam conferir a imensa criatividade de Cervantes: 


Digo pois — prosseguiu Sancho — que num lugar da Estremadura havia um pastor cabreiro (quero dizer: um pastor que guardava cabras,) o qual pastor (ou cabreiro, como digo no meu conto) se chamava Lopo Domingues; e este Lopo Domingues andava enamorado duma pastora que se chamava Torralva; a qual pastora chamada Torralva era filha de outro pastor rico; e este pastor rico...

— Se continuas a contar por esse modo, Sancho — disse D. Quixote — repetindo duas vezes o que vais dizendo, teremos conto para dois dias; conta seguido, e como homem de juízo; ou, quando não, é melhor que te cales. (Chorei !!)

— Como eu o conto — respondeu Sancho — é que eu sempre ouvi contar os contos na minha terra; de outro modo não sei, nem Vossa Mercê me deve pedir que arme agora usos novos. (Sumemo, Sancho! U.U)

— Dize como quiseres — respondeu D. Quixote; — visto que a sorte quer que não possa deixar de ouvir-te, prossegue.

— Assim pois, senhor meu da minha alma — continuou Sancho — este pastor, como já disse, andava enamorado de Torralva, que era a tal pastora, cachopa roliça, despachadona, e tirando seu tanto para machoa, porque até bigodes tinha; parece-me que ainda a estou vendo.

— Visto isso conheceste-la? — disse D. Quixote.

— Eu não, senhor — respondeu Sancho — mas quem me contou este conto disse-me que era tão certo e verdadeiro que, se eu o contasse a alguém, podia afirmar-lhe e jurar-lhe que eu próprio tinha visto aquilo tudo com estes que a terra há-de comer (Sancho seu troll!! kkkk). E vamos adiante. Como atrás de tempos, tempos vêm, o diabo, que não dorme nunca, e que está sempre atrás da porta para se intrometer em tudo, fez de modo que o amor que o pastor lhe tinha a ela se derrancasse em cenreira e má vontade; e foram causa (segundo as más línguas) uns certos ciumezinhos que ela lhe deu a ele, e tais que já passavam dos limites, e iam frisando no defeso. Foi tanto daí em diante o aborrecimento do pastor que, para nunca mais a enxergar, se quis ausentar da terra, e ir-se para onde nunca mais a visse com os dois olhos que tinha na cara. A Torralva, vendo-se desprezada de Lopo, logo lhe quis bem, e muito mais que em todo o tempo atrás.

— Natural condição de mulheres — disse D. Quixote — desdenhar a quem lhes quer, e amar a quem as aborrece. Adiante, Sancho, adiante. (como assim Quixote? - pensei)

— Sucedeu — disse Sancho — que o pastor pôs por obra o determinado; e, tocando diante de si as suas cabras, encaminhou-se pelos campos da Estremadura direito a Portugal. A Torralva, que o soube, partiu atrás dele, seguindo-o a pé e descalça a distância, com o seu bordãozinho na mão, e uns alforjes ao pescoço, levando neles, segundo é fama, dois pedaços, um de espelho, outro de pente, e um boiãozinho de não sei que unturas para o carão (mas levasse o que levasse, que nesses debuxos é que eu me não quero meter); só digo que, pelo que dizem, o pastor chegou com o seu rebanho à beira do rio Guadiana, e naquela ocasião ia crescido e quase por fora da madre. No sítio onde ele chegou não havia barca nem barco, nem quem o passasse a ele nem ao seu gado para outra parte; com o que muito se ralou, por ver que a Torralva já vinha muito perto, e, se o apanhasse, não pouca freima lhe daria com os seus rogos e lágrimas; mas tanto mirou e remirou, que sempre ao cabo viu um pescador, que tinha ao pé de si um saveiro, mas tão pequeno, que nele só podiam caber uma pessoa e uma cabra. Com tudo isso falou-lhe e conchavou com ele, que o levaria, e as suas trezentas cabras. Saltou o pescador para o barco, e levou uma cabra; voltou, e levou outra; tornou a voltar, e tornou a passar outra. Tome Vossa Mercê bem sentido na conta das cabras que o pescador vai passando, porque, se se lhe perde uma da memória, acaba-se o conto, e não será possível adiantar-se nem mais palavra dele. Continuo pois, e digo que o desembarcadouro da outra parte estava todo enlodaçado, e resvaladio; e em razão disso o pescador despendia muito tempo com as idas e venidas; apesar de tudo, voltou por outra cabra, e outra, e outra.

— Bem; faze de conta que já as passou todas — disse D. Quixote; — não andes para lá e para cá dessa maneira, que num ano não acabarias de as passar.

— Quantas são as que já passaram? — disse Sancho.

— Eu que diabo sei? — respondeu D. Quixote. (também não olhem pra mim porque nunca fui boa de contas! u.u)

— Aí está por que eu lhe disse que tomasse sentido na conta — acudiu Sancho; — pois juro-lhe que está a história acabada; não se pode passar para adiante. (Sancho Trooll, kkkkkk)

— Como pode isso ser? — respondeu D. Quixote — tão essencial é para a história saber à justa as cabras que têm passado, que, se se errar uma, já o conto não pode continuar?

— Não, senhor; por feitio nenhum — respondeu Sancho; — quando eu perguntei a Vossa Mercê que me dissesse quantas cabras tinham passado, e Vossa Mercê me respondeu que não sabia, naquele mesmo instante se me varreu a mim da memória o mais que tinha ainda por dizer; pois a-la-fé que faltava o melhor e o mais saboroso.

— Visto isto — disse D. Quixote — está já deveras acabada a história?

— Tão acabada como minha mãe — disse Sancho. (nesse ponto eu rachei de ri)

— Em verdade te digo — respondeu D. Quixote — que hás aí contado uma das mais originais histórias, anedotas ou contos, que ninguém no mundo poderia inventar. Modo tal de contar e concluir nunca o vi nem espero ver em toda a minha vida. Mas também, que outra coisa poderia vir do teu bestunto? Enfim: não me admiro; estes golpes, que não cessam, natural é que te hajam turbado o entendimento.

— Tudo pode ser — respondeu Sancho — mas o que eu sei é que a respeito do meu conto não há mais que dizer; acabou-se ali, onde começou o erro da contagem das cabras.

— Acabado seja ele onde quiseres, e em boa hora; e vejamos se poderá já mover-se o Rocinante.


2 comentários:

  1. "Modo tal de contar e concluir nunca o vi nem espero ver em toda a minha vida." Também não espero ver de jeito nenhum! Já pensou ter que esperar alguém contar 300 cabras, e ainda perder a conta e não terminar de contar a história? kkkkkkkk ri muito com esse trecho!

    Li uma versão do Dom Quixote adaptada "para jovens" uma vez, mas achei muito sem graça. Não teve essa parte do post não, era um resumo do resumo numa linguagem mais fácil. Vou procurar a versão traduzida.

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    1. Eu ri muito também! Mas é um livro muito, muito difícil. Eu leio a noite, e depois de 3 páginas, eu estou exausta como uma pedra! O que me faz continuar é que a obra é muito boa mesmo. Mas a leitura é realmente muito complicada. Não é atoa que tem tantas versões simplificadas.

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