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Segredo



Secretamente eu estou perdendo o gosto de me divertir com as pessoas. De me surpreender com elas. Secretamente eu me sinto farta da maioria delas. Nenhuma surpresa. Nenhuma surpresa. De todos os anos que já vivi, de todas as coisas que eu já passei, eis a pior sensação que eu já senti na vida: porque não sinto medo, não sinto esperança, não sindo vontade. Eu não sinto nada. Pra mim, nenhuma surpresa. 

As pessoas são sempre do mesmo jeito: escondem-se nas suas profissões. Elas são suas profissões. Elas não sabem mais ser mais nada. Eu não tenho vontade de falar com elas, de conhecê-las, porque sei, eu sei que a mesma história virá: Olá, eu sou fulano, sou isso e trabalho naquilo. Faço trabalho voluntário disso, sou bom naquilo e outro. Eu estou perseguindo meus sonhos, eu estou bem....Blá, blá, blá! 

Por vezes, uma sensação paranoica me assola: temo que todos os humanos foram abduzidos, ficando aqui no mundo, somente suas capas, suas máscaras. Não se pode mais ter um diálogo saudável com mais ninguém. Sem se profanar frases de poetas mortos, sem filosofar teorias vazias. 
As pessoas e seus modos de vida. As pessoas e seus mé
todos de vida. Seus olhares julgadores. Suas ilusões. As pessoas e suas teorias, aquelas teorias que alguém disse e que elas acreditaram. Que elas lutam, sem mesmo saber porque lutam.

No trabalho, as panelinhas de grupo, as mesmas reclamações de proletariados: meu salário não é justo, eu trabalho demais..São palavras vazias, as que saem delas. Pra mim, não significam nada: O show que elas foram, a camisa que compraram, o livro que elas leram, as descobertas inúteis que elas souberam pelo Google ou pelo History. 

Elas dizem: Sabrina, você está aqui? Eu respondo que sim, sorrio meio sem graça. Mas cada dia que passa é cada vez mais e mais difícil prestar atenção nelas, no que elas dizem. Qual a brincadeira que aprenderam no trabalho e comigo querem compartilhar? Querem repetir pra mim o mesmo jargão do colega da escola e fazer de conta que é como aquele. 

Secretamente, eu ando perdendo o gosto por muitas coisas. Até com meus íntimos amigos de infância, não tenho gosto de conversar. Porque sei que eles irão querer saber dos meus problemas, que eu direi com muita prontidão, dando a eles um pouco mais de emoção em suas vidas. Mas eles não poderão me transmitir emoção nenhuma. A vida deles está ótima. Seus corações. Porque eles trabalham e eles tem dinheiro. Eles não entendem que mais podem querer do mundo. Eles já tem tudo. Eles tem o perfil do facebook, pra postar fotos deles mesmo em festas, sorridentes, com seus milhares de amigos e mais uma eterna namorada (a eterna namorada da vez). 

As pessoas e seus perfis de redes sociais. Seus blogs de roupa nova e de maquiagem. As pessoas e seus diplomas. As pessoas e suas profissões. Elas não me dizem nada. 

O que eu digo a elas, sempre ofende. Então eu peço desculpas e elas me parecem triunfantes, porque acreditam que em mim há um certo arrependimento pelo meu comportamento. Mas o único arrependimento que tenho foi de ter crescido e me tornado um pouco como elas. 

Vão até minha casa, me ligam, me mandam emails dizendo que precisam saber como estou, que se preocupam. E saem me julgando: Oh, a Sabrina, a Sabrina não está muito bem, oh, ela não está bem
As pessoas são sempre cheias de boas intensões. Elas querem ajudar. 
Algumas dizem ao meu namorado: Você mima demais essa menina, ela precisa andar sozinha, aprender a caminhar, você sabe. Querido, isso não está certo, só porque eu disse que não está certo, a vida de vocês dois não pode ser perfeita, sabe? Porque a nossa não é!


As pessoas mentem também. Elas mentem muito. Não coisas necessárias e úteis. As pessoas e suas mentiras fúteis. Elas buscam razões para mentir. Elas escondem seus casos e apesar de sentirem vergonha deles, elas vivem seus casos ardentemente por debaixo dos cobertores. O marido da vizinha do 201 com a vizinha do 503. Os colegas casados de trabalho. Mentem o tempo todo. O telefone toca e elas dizem: "não, meu telefone não tocou". Alguém diz "alô" e elas respondem "não, eu não sei quem é"
A televisão ensina e a vida imita. 
As pessoas precisam se sentir bonitas, desejáveis e tentadoras. Elas se acham emocionantes, mas pra mim, elas são previsíveis, tolas, repetitivas e mesquinhas.


Você lembra quando éramos crianças? E quando nos encontrávamos sabíamos (sem precisar dizer quase nada), ser nós mesmos? Mas faz tanto tempo. Há tanto que devemos imitar. Não sabemos mais pra onde fomos, onde ficou nossa essência....

onde ficou nossa essência....




5 comentários:

  1. Fiquei triste com seu triste Sabrina. Mas é isso mesmo né, todo esse depoimento é de causar tristeza pois realmente as pessoas e o mundo estão sendo reduzidos à coisas supérfluas e todos parecem tão vazios, em seus discursos e ações. Pessoas assim como você, sensíveis sentem são atingidos com mais intensidade e se sentem mal, enquanto os outros adormecidos apenas continuam a viver, como se a vida fosse assim mesmo.

    Eu me identifiquei muito com seu texto, e as vezes até temo estar me transformando num desses robôs...

    Fica bem menina ! Não gaste sua energia e alma em coisas que não te fazem bem!

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  2. Gostei do texto! Também acho tudo isso!
    É muita demagogia, e eu não acho que você seja triste, mas sim realista!

    Abraço!

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    Respostas
    1. Que fofa você "Nilse e João"!
      Obrigada por visitar o blog e pela compreensão.
      Volte sempre!!! :)

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  3. Eu tenho medo de acabar ficando assim, de me esquecer de quem eu sou e de me transformar em uma pessoa vazia, espero que não aconteça

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