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O caso de John e Maria

Eu não sei em que rua ele seguiu e eu me perdi ficando pra trás. Ele cuida bem das suas plantinhas, e conversa com os gatos. Mas a mim, reservou um certo olhar triste e frio, como quem quer se vingar da própria vida. Justo eu, que não tinha culpa alguma por ele ter nascido e levar uma vida mesquinha. Mas a culpa vai sempre para aquele que está mais próximo daquele que se sente revoltado consigo mesmo. 
Porque, a bem da verdade, toda a raiva que projetamos nos outros, vem de nós mesmos.

Eu era a única menina da rua. E foi fácil ser sua amiga. As vezes eu fico pensando, se existisse outra, se seríamos amigos, mas acho que não. Nunca tive nenhum atrativo para competir com qualquer garota que fosse e qualquer mulher que se porta ao meu lado, pode ser mais bonita e aparentemente mais interessante que eu. Isso é sempre fácil pra qualquer uma. 
Talvez se existisse outra, eu não teria  oportunidade de mostrar meu íntimo, esse sim, me parece muito belo, pelo menos é o que me dizem as poucas pessoas que o conheceram. 

Tão logo nos tornamos amigos, estávamos sempre juntos: assistíamos televisão a tarde, enquanto nossos pais trabalhavam. Depois que os desenhos acabavam, saímos a andar pelas ruas e as vezes roubávamos jabuticabas:
-Você acha que roubar jabuticaba é pecado?
-Não..pecado é não roubar as jabuticabas. 
E a noite, subíamos no telhado da minha casa. Era a melhor parte. E a gente sonhava em ter uma casa só nossa, uma oportunidade de nunca precisarmos nos separar. A gente sonhava com filhos e discutíamos como iríamos criá-los. Sonhávamos com a nossa profissão e depois nos beijávamos até meu pai me chamar. E eu sempre ia embora pra casa com aquela satisfação, com tanto amor, que parecia não caber no coração. 

Da janela do seu quarto, ele refletia uma luz, com uma lanterna. Era seu jeito de me dizer boa noite, ou talvez de me dizer que ainda estava comigo. E era sempre bom, porque eu também estava sempre a pensar nele. 
Os amantes são tolos. Não porque amam, mas porque acham que o amor não basta. Quando se conhecem, passam a ter a imensa felicidade de sentir que enfim, encontraram alguém especial e suas vidas passaram a ter um sentido. Mas estragam tudo quando passam a planejar. Planejam casamentos, planejam filhos, planejam financiar uma casa, um carro. E esse é o começo do fim. 

Crescemos, eu acho. Entramos na faculdade, adquirimos uma profissão e inúmeras possibilidades. Mas cada uma possibilidade pesa como chumbo em nossas costas. É uma carga tão pesada, você deve pensar. É, eu também acho. E nossas noites no telhado se foram pra sempre. Engraçado, porque as vezes acho que só continuamos juntos, por causa daqueles momentos no telhado. Queríamos mais, queríamos poder estar mais juntos. E agora que podemos, nunca tivemos tão separados. Tínhamos tudo, quando não tínhamos nada. E agora que temos tudo, não temos mais nada. 

Cabia a nós fazer diferente daquilo que acontece com todo mundo. A gente sempre acha, que com a gente vai ser diferente. Falta humildade pra assumir que a vida segue um curso igual pra todos e raras as pessoas sobrevivem a este curso. Há de ser muito especial, a maioria de nós não é. Mas pra não assumirmos isso, trocamos as coisas, as pessoas, trocamos de emprego ou de carro. Queremos que o erro esteja no outro ou na coisa, mas nunca em nós. 

Somos um casal morto, igual a cem mil casais mortos. 







Um comentário:

  1. Eu adorei esse texto! Principalmente o primeiro paragrafo, que fala da raiva dos outros, e o último, que fala da gente se achar especial. Porque é verdade, a gente nunca procura o erro em nós mesmos, embora ele esteja lá

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