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MATRIX



Talvez a tristeza seja um vício. Existe um certo conforto nela. Uma vez li uma frase que dizia algo parecido, de algum poeta morto, antigo. Não se pode atingir a felicidade ou amadurecer sem a tristeza. É nesses momentos que mais crescemos e adquirimos sabedoria. É no recolhimento de nossos pensamentos, uma análise independente de nossas vidas. 
Digo independente, porque muitas pessoas veem uma vida desenhada: desenhada na televisão, nas utopias pessoais, nas redes sociais. Na religião. Encarar a própria vida nua e crua é tarefa para poucos. Alguns nem se esforçando muito conseguem. 

Há muitos artifícios lá fora, para que você entre no labirinto do ratinho e nunca mais saia dele. Para que você levante todos os dias na mesma hora, para que você entregue metade do seu tempo em benefício de uma pessoa (patrão) para no final do mês você perder quase tudo que recebeu em impostos, taxas, multas, inflação. Há muitos artifícios, afinal, nos ensinaram coisas sobre a moda e precisamos de carros e um celular novo e de uma profissão. 


Aos estudantes, os mais velhos dizem: estude e será alguém na vida
Mas ninguém se torna alguém na vida. 

Você leva a vida inteira pra entender isso.

As pessoas se tornam a profissão que elas são. Mas nunca "alguém". 

Quando eu vou na minha psicóloga eu vejo que ela analisa as coisas, dentro das teorias que ela estudou. Ela sabe muito sobre as doenças mentais, sobre os problemas do cérebro. Ela vê o mundo como Freud, Leon Festinger... Ela também fala muito de religião. Mas e se ela pudesse ver o mundo sem nenhum desses dogmas? Se ela pudesse analisar sem o vício das teorias? O que sobraria? 

As vezes, eu chego no consultório dela, e seus olhos estão tão tristes, tão cansados. Ela está sentindo a crise. Ao seu redor, vários consultórios fecharam. Eu queria fazer algo por ela. Perguntar se ela quer conversar. Mas ela é a psicóloga, Seria um desrespeito. As pessoas se tornam a sua profissão. 

A crise do país. Os velhos abandonados e sem dinheiro. Os doentes mendigando salário mínimo no INSS. As ações trabalhistas que todo dia eu vejo, de trabalhadores que mentem, que criam doenças funcionais, porque o valor da rescisão não foi suficiente. Eles querem mais e o governo há muito tempo fechou as portas para eles. Não há emprego. A cada demissão, uma nova reclamação trabalhista. E são pedidos tão absurdos, há tantos danos morais que concluo: o ser humano está realmente decadente e fraco. Tudo hoje gera dano moral. Tudo. 

E minha profissão se sustenta desses litígios. Nada melhor para os advogados. 

Tem um filme, aquele, que se chama MATRIX. Eu nunca o entendi. Mas tem uma cena muito interessante. Um senhor oferece ao jovem duas pílulas. E ele diz: aqui eu tenho duas pilulas, uma azul e outra vermelha. Se você tomar a azul, voltará  a ser o homem de antes e nunca saberá sobre a Matrix. Se tomar a pílula vermelha, nunca mais verá o mundo de antes e verás a realidade.


Ele toma a pílula vermelha e vê que a realidade é feia e muito triste. Deve ser por isso que os filósofos enlouquecem. Eles tomam pílulas demais. 

E como diz Raul Seixas numa música que eu gosto muito: "É pena eu não ser burro, talvez assim, eu não sofresse tanto".

As vezes eu queria me iludir com carros, celulares, roupas novas...Amor de comédia romântica. Viagens ao exterior, diplomas, ofícios...Ah, seria tão mais fácil...

Você já viu a cena da pílula? Você deveria ver. 


(..) Você é um escravo. Como todo mundo, você nasceu num cativeiro, nasceu numa prisão que não pode sentir ou tocar. Uma prisão para sua mente.


E só para este post não ficar tão negativo quanto essa pessoa que vos escreve, termino com a música do Rauzito. Pois como adoram implorar os roqueiros descamisados: Toca Raul, só pra variar! 



2 comentários:

  1. "A ingorância é uma benção". Me vejo como a sua psicologa, fico aqui pensando, todo dia, como eu posso querer me formar numa profissão que ~na teoria~ ajuda as pessoas a lidarem com os problemas delas, se eu nem mesmo sei lidar com os meus.

    Depois dessa cena, vou ter que ver Matrix de novo. Faz uns dez anos que assisti, não entendi nada na epoca, mas agora me parece fazer mais sentido que antes. Talvez eu consiga entender porque ele pega a pílula vermelha

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  2. Marina, eu também acho o filme bem complicadinho. E eu não gosto muito de filmes de ação. Mas a ideia do filme é perfeita. e aborda muitos pensamentos filosóficos. :)

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